
M. Elizabeth Mota
Oftalmologista pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP. Membro Titular do Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Atende em seu consultório, em Itu.
teste do Olhinho
O teste do reflexo vermelho, ou simplesmente “teste do olhinho”, é desde março obrigatório em todos os recém-nascidos nos hospitais do estado de São Paulo.
Assim como o teste do pezinho é capaz de detectar precocemente e evitar doenças mentais nos bebês, o teste do olhinho também promete proteger muitas crianças da cegueira ou do desenvolvimento de doenças oculares como a catarata, o glaucoma e o retinoblastoma.
Aproximadamente uma criança fica cega a cada minuto no planeta. De acordo com a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP), 80% da cegueira mundial poderiam ser evitadas – sendo 60% curáveis e 20% previsíveis – se medidas como esse simples teste fossem tomadas. Estima-se que existam 400 mil crianças cegas no mundo – e 94% delas encontram-se nos países em desenvolvimento. Só no Brasil, acredita-se que existam entre 25 mil e 30 mil crianças cegas.
Essa estatística é assustadora porque na maioria dos serviços de neonatologia do país os olhos dos recém-nascidos não são adequadamente examinados. Como resultado, mais de 50% dos recém-nascidos só têm a alteração descoberta quando estão cegos ou quase cegos para o resto da vida. Tais seqüelas seriam prevenidas em grande parte se o problema fosse tratado no tempo certo.
O que é o teste
Trata-se de um exame muito simples, indolor e rápido, e que pode ser feito pelo próprio pediatra do hospital ou da maternidade. O único equipamento necessário é um oftalmoscópio direto.
O “teste do reflexo vermelho” recebe esse nome porque, quando a luz é projetada no olho do bebê sadio, um reflexo vermelho ou amarelo-avermelhado proveniente da retina se apresenta. Tanto a intensidade como a coloração do reflexo devem ser semelhantes em ambos os olhos, ou seja, simétricos. A reflexão da coloração avermelhada normal da retina ocorre porque os meios oculares (córnea, cristalino, vítreo) encontram-se transparentes. A ausência do reflexo ou a presença de reflexos diferentes em um e outro olho podem significar alguma alteração congênita. Neste caso, a criança deve ser encaminhada ao oftalmologista com urgência.
A Sociedade de Pediatria de São Paulo e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, em documento conjunto, sugerem sua realização em todo recém-nascido na primeira semana de vida.
O teste também pode ser realizado nas consultas rotineiras em crianças maiores, de qualquer idade, e não só no berçário, pois muitas doenças passíveis de diagnóstico pelo método podem aparecer mais tardiamente.
Doenças detectáveis
Estima-se que atualmente 0,4% dos recém-nascidos seja portador de catarata congênita. Esse número é decorrente da alta incidência de infecções congênitas, como a rubéola. Já nos países desenvolvidos, sua maior causa é genética. A catarata congênita é detectada pelo teste do olhinho, quando apresenta um reflexo vermelho que não é visto de maneira clara ou uniforme.
O diagnóstico precoce desse tipo de catarata é de extrema importância para o bom desenvolvimento da criança, pois quanto mais precoce o diagnóstico e o subseqüente procedimento cirúrgico, nos casos positivos, menor será o dano à acuidade visual provocado pela doença. Assim, um caso de catarata total, eliminada no primeiro mês de vida, provavelmente não deixará seqüelas. Já a espera de sete ou oito anos para a cirurgia da catarata possivelmente criará danos irreversíveis.
O glaucoma congênito é observado em um em cada 10 mil recém-nascidos vivos, aproximadamente, e é decorrente do aumento de pressão intra-ocular que provoca rupturas no endotélio corneano, levando a edema de córnea. O edema de córnea impede a entrada normal de luz para dentro do olho.
Essas doenças, quando detectadas precocemente e tratadas antes do período crítico, isto é, nos primeiros três meses de vida, têm resultados muito melhores. O ideal é que as cirurgias sejam realizadas na quinta semana de vida do bebê, entre o segundo e o terceiro mês.
Quanto aos tumores malignos intra-oculares, o retinoblastoma é o mais freqüente na infância. Se não tratado com urgência, pode levar a criança ao óbito. Segundo dados do SBOP, no Brasil 60% dos retinoblastomas são diagnosticados tardiamente, quando já não é possível salvar o olho e, às vezes, nem a vida da criança.
Existem dois tipos de retinoblastoma: o resultante de uma mutação somática, em que um fotorreceptor da retina sofreu uma mutação e desenvolveu o tumor; e outro resultante de uma mutação germinativa, em que todas as células do indivíduo carregam a mutação responsável pelo tumor. O retinoblastoma resultante de mutação somática é esporádico, sempre unilateral e raramente congênito. O retinoblastoma decorrente de uma mutação germinativa é transmitido de forma autossômica dominante, é bilateral em 30% dos casos e pode ser congênito.
Visão saudável para um desenvolvimento melhor
Felizmente, o estado de São Paulo não é o único que está empenhando em detectar e tratar precocemente as doenças oculares nos recém-nascidos.
O governo municipal de São Paulo já havia decretado a obrigatoriedade do teste do olhinho em 2003. E antes disso, em 2001, a capital carioca também já havia instituído o teste, a exemplo de outras cidades do Brasil.
No Planalto já há estudos e projetos para tornar o teste do olhinho uma obrigação nacional. Uma coisa é certa: a participação conjunta de pediatras e oftalmologistas nessa luta para a prevenção da cegueira infantil é fundamental, pois todo o processo de desenvolvimento da visão está na dependência do estímulo visual. A criança necessita “ver” para desenvolver a sua visão. Até que a acuidade visual esteja totalmente estabelecida, qualquer obstáculo à formação de imagens nítidas em cada olho pode levar a um mau desenvolvimento visual, que se tornará irreversível se não tratado em tempo hábil. E uma boa acuidade visual é importante no desenvolvimento físico e cognitivo normal da criança.
Uma criança com visão subnormal tem seu desenvolvimento motor e sua capacidade de comunicação prejudicados, porque gestos e condutas sociais são aprendidos, também, através da visão.













